| RIM 900 - Primeiro e inovador pager criado pela RIM em 1996 |
Um caso recente de grande visibilidade é o da RIM (dona da BlackBerry). Fundada em 1984 a RIM criou um grande número de patentes e chegou a valer USD 67 bilhões em 2007 se transformando na empresa mais valiosa do Canadá.
Desde 2007 muita coisa mudou e o iPhone, Androids, etc transformaram a indústria de smartphones. Hoje a RIM (que mudou de nome para BlackBerry) é avaliada em menos de USD 5 bilhões e busca desesperadamente por uma solução.
Como uma empresa tão grande e inovadora pode ruir em tão pouco tempo?
Um interessante estudo realizado pela Standard & Poors mediu o tempo médio que uma determinada empresa permanece dentro do índice S&P 500. Em outras palavras, por quanto tempo uma empresa que se tornou grande permanece grande?
| Tempo médio de permanência no índice S&P 500 |
O resultado mostra que esse tempo que já foi de 61 anos em 1958 hoje está em 18 anos. Ou seja, se uma empresa entrar hoje no clube das grandes, é provável que permaneça lá apenas até completar 18 anos.
Embora não se tenha uma única razão para esta mudança, é fato que a revolução tecnológica das últimas décadas tem contribuído para que se criem novas grandes empresas, mas também para que grandes empresas sejam reduzidas a pó. O movimento em si não é novo, mas o ritmo da mudança tem assustado. Afinal de contas , ninguém diria há 15 anos que hoje Google, Amazon, Facebook entre outras seriam das empresas mais valiosas do mundo. Mas não apenas de novatas vive o mundo das grandes empresa, há excelentes exemplos de corporações centenárias, que permanecem relevantes mesmo após décadas ou séculos de liderança tais como DuPont (1802), CitiGroup (1812) ou General Eletric (1892). E o que essas grandes anciãs e suas novatas companheiras têm em comum? Todas inovam, não apenas no discurso, mas inovam e muito na prática do dia a dia. Eu acabo por admirar muito mais as "velhas" inovadoras porque eu entendo que é muito mais complexo para uma grande e antiga empresa inovar, do que para uma leve e nova startup.
Mas afinal, qual é a dificuldade? Uma grande empresa possui músculo financeiro, produtos e clientes, mas por que boa parte delas não consegue inovar de forma a manter e ampliar sua posição? Se você perguntar a alguém da gestão de uma empresa destas se inovação é importante vai receber um sonoro SIM como resposta e que eles investem milhões em inovação, que inclusive criaram uma área apenas para inovar, etc. O problema é que a prática teima em afirmar o contrário.
A seguir eu listo alguns dos motivos que mais observei no dia a dia de grandes empresas que sufocam a inovação.
Excesso de processos
Grandes empresas precisam de bons processos, não resta dúvida sobre isso. Ocorre que algumas exageram na mão e acabam por colocar a burocracia a frente dos objetivos estratégicos.
Geralmente quanto mais o tempo passa, mais processos e controles são criados, mais tempo é dispendido para cumprir o rigor dos procedimentos e menos para criar valor ao negócio. Com o tempo, as pessoas acostumam-se ao grande volume de burocracia e deixam de questioná-la, tornando-se engrenagens da grande máquina. Quem não viu uma situação em que um erro é cometido e cuja solução dada pela organização é a criação de um novo processo para evitá-lo?
Eu acredito que essas empresas devem rever seus processos periodicamente com o intuito de reduzi-los, e não aumentá-los como é a regra. A questão fundamental para cada processo criado ou analisado deve ser: que valor este processo agrega para o meu negócio? Se for difícil encontrar uma resposta convincente talvez seja hora de eliminar ou rever este processo.
Estimular uma cultura em que as pessoas possam questionar o processo é fundamental, só assim elas poderão exercitar sua inquietação, ingrediente essencial para a inovação.
Estimular uma cultura em que as pessoas possam questionar o processo é fundamental, só assim elas poderão exercitar sua inquietação, ingrediente essencial para a inovação.
Tamanho
É muito mais difícil mudar a rota de um transatlântico do que de uma lancha. Novas e pequenas empresas sempre tem a vantagem de serem leves, de poder mudar sua estratégia e posicionamento sem grandes consequências, mas uma grande empresa não pode se dar a este luxo. Por exemplo, se uma empresa atua com um produto para a classe A e agora resolve vender um novo produto para a classe D, como seus clientes originais iriam reagir? Será que esse movimento não pode sufocar o seu caixa, pois ela vai perder clientes de um lado talvez numa velocidade superior ao que vai ganhar do outro. Por isso grandes empresas fazem movimentos muito calculados, às vezes até com certa lentidão quando visto de fora. Obviamente que há inúmeros casos de sucesso de grandes empresas que, apesar do tamanho, são extremamente inovadoras. Uma técnica em que acredito bastante para ultrapassar este problema é a criação de spin-offs. Uma spin-off é uma operação independente criada a partir da empresa mãe para atuar num novo segmento, com um novo produto ou novo posicionamento. A spin-off tem a vantagem de ser leve, ao mesmo tempo em que dispõe de capital financeiro oriundo da empresa mãe.
Pressões de curto prazo
Em algumas companhias, em especial nas de capital aberto, o CEO e o corpo diretor são extremamente pressionados por ganhos no curto prazo. Neste cenário qual seria a decisão de um executivo quando colocado diante do seguinte dilema: apostar numa inovação que pode trazer (ou não) resultados em 10 anos ou investir todas as fichas em produtos que já possui para entregar o resultado financeiro do próximo trimestre? O executivo é um ser humano e vai tomar a decisão que lhe garanta sobrevivência, afinal ele nem faz ideia de onde estará daqui a 10 anos. Isso ocorre em inúmeras empresas de capital aberto, algumas até resolvem fechar seu capital para poder se reposicionar, como foi o caso recente da Dell.Claro que fechar o capital não é uma saída possível para todas, mas cabe ao conselho da empresa colocar metas que estimulem a inovação e a sustentabilidade do negócio em longo prazo. Essas metas podem ser desde reduzir a participação na receita de um produto já em sua maturidade, bem como estipular alvos para o lançamento de novos produtos que contribuam com uma certa parcela da receita ou de clientes. Essas metas devem "forçar" o corpo diretivo a manter os olhos no longo prazo enquanto entrega os resultados imediatos.
Política
Gostemos ou não, em grandes empresas investimos muito tempo fazendo política. A política pode funcionar tanto para o bem, quanto para o mal. Em algumas companhias pessoas tendem a evitar se expor, se arriscar, pois não sabem exatamente o que seus pares e interlocutores farão para ajudar ou atrapalhar seus objetivos. Esse ambiente onde todos atuam com extrema cautela é péssimo para uma empresa que deseja inovar. Afinal de contas, não existe inovação sem uma boa dose de ousadia.As companhias podem atuar para compreender o ambiente existente dentro da empresa através de ferramentas simples como pesquisas internas, avaliações 360 graus e metas cruzadas, de forma que as pessoas sejam levadas a colaborar umas com as outras.
Cultura
Talvez um dos itens mais difíceis de se alterar, a cultura é formada numa empresa por anos, tornando-se quase que um código de conduta que todos seguem, sem sequer se dar conta. A organização que deseja inovar deve promover uma cultura onde o erro seja aceito, sem ser tolerado. Isso significa que o erro é esperado, mas a sua ocorrência deve ser seguida de um aprendizado. As pessoas devem ser motivadas a tentar, mesmo que falhem, e suas falhas não podem ser alvo de punições ou achincalhamentos. O mais importante é observar no erro uma forma de aprender para realimentar o processo de inovação. Não por acaso empresas que promovem caça as bruxas na ocorrência de problemas raramente se destacam por sua inovação, embora em muitos casos sejam excelentes sob a ótica operacional.Criação do departamento de inovação
Esse é a atitude mais comum daquelas empresas que descobrem que é preciso inovar: vamos criar um departamento para isso! Eu acredito que esse é o primeiro erro. Não tenho nada contra existir esse departamento, mas não aceito a ideia de que a inovação vai ocorrer apenas num grupo de seletos profissionais que foram especialmente preparados para inovar. A inovação deve estar na cultura de toda a organização e próxima das pessoas que atuam junto aos clientes, no dia a dia.O departamento de inovação pode fazer um excelente trabalho promovendo processos e técnicas para que toda a organização possa inovar, seja através de ferramentas tradicionais como caixas de idéias, ou até mesmo patrocinando políticas de estímulo à criação de novos produtos. Eu acredito que toda grande empresa deve ter um departamento destes, mas sua função não deve ser inovar, mas garantir que o resto da organização tenha condições para o fazer.
